Palestra em homenagem ao dia dos médicos

   

Boa noite a todos.

 

É um grande prazer para mim estar aqui hoje participando desta cerimônia em homenagem aos médicos. Agradeço por essa oportunidade ao Dr. Claudio Luiz Lottemberg, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein e ao Dr. Miguel Cendoroglo, diretor de prática médica do Hospital Albert Einstein.

Sou socióloga e escritora, pós-graduada em administração de marketing com MBA em gestão de negócios mas nesse momento falo desprovida dos títulos acadêmicos e técnicos. Falo em nome do querido Alexandre, meu caçula, que sempre quis ser médico.

Meu filho aprendeu um pouco sobre o que é ser médico no período em que ele esteve internado aqui no Einstein. Viveu sua internação como se fosse um residente de medicina. Ele me dizia: “Mãe, olha que sorte, eu estou no lugar onde eu quero trabalhar e aqui vou aprender como é ser médico de verdade”. Prestando atenção em tudo, pesquisava na internet os termos que ele não conhecia, lia os laudos e sobretudo observava como os médicos trabalhavam. Por essa razão, eu tenho um carinho muito especial pelos profissionais da área médica porque foi através do meu caçula que eu me aproximei da medicina.

Mas o destino levou meu pequeno médico para um outro mundo quando ele tinha 13 anos, depois de 20 meses de luta contra um neuroblastoma, que quando foi diagnosticado estava no estadiamento 3.

A partir disso, eu descobri que nós – seres humanos – ( todos nós ) somos frágeis e fortes ao mesmo tempo. Frágeis porque não temos controle sobre nosso destino e fortes porque o enfrentamos seja ele qual for.

Imagino o quanto é difícil para um médico acompanhar o declínio de uma vida, o quanto deve ser desesperador o sentimento de impotência frente à austeridade das doenças graves e à inflexibilidade da morte.  Me lembro do Alê numa das consultas de rotina fazer a seguinte pergunta para o médico dele:

- Dr. Regis, você já teve um paciente que morreu enquanto você cuidava dele? – O Dr. Regis respondeu:

- Alê, a gente não fala de outros pacientes com nossos pacientes .

– Claro, Dr. Regis, está certo. Mas você já teve ou não um paciente que morreu?

Sentada ao lado do Alê, enquanto eu esperava, em silêncio, o desfecho daquela conversa comecei a pensar na liberdade que meu filho tinha em encarar a própria doença, sem preconceitos, sem medo e com um espírito investigativo pouco comum. Cedendo ao interesse de seu paciente, o Dr. Regis respondeu:

- Alê, eu cuidei de uma garota com tumor cerebral mas ela morreu.” – falou num tom circunspecto e sentido.

-  Putz! Dr. Regis, que barra pra você isso, né? Acho que isso deve ser a coisa mais difícil para um médico. – falou, o Alê, solidário ao médico.

- É, Alê, a gente não tem o poder que gostaria de ter.

Essa pequena conversa foi uma entrega muito grande por parte do médico e também do paciente, que se colocou no lugar do médico. E foi esse o médico que anunciou alguns meses depois que meu querido Alê chegara ao fim. Agradeço ao Dr. Regis pela sua coragem naquele dia.

Ser médico é como ter o direito de se aproximar da alma humana. Imagino quão abençoados são os médicos por terem a chance de conhecerem seus pacientes cada um com uma história diferente, com hábitos e interesses variados. Os médicos têm a oportunidade de compartilharem dos momentos mais nobres da existência humana, pois nada é mais verdadeiro e pleno de significados para os homens do que o inicio e o fim de uma vida.

Para o paciente a excelência técnica do conhecimento cientifico é simplesmente  um denominador comum. É próprio do paciente confiar na capacidade profissional do médico – o que evidentemente é fundamental e por essa razão não se discute.

Mas há uma diferença entre os médicos. Do ponto de vista do paciente, o bom médico é aquele que caminha na direção dele, é aquele que sabe ouvir seus desconfortos e angústias  às vezes com os ouvidos, às vezes com os olhos e sempre com o coração.

Em todo e qualquer tratamento, independente do resultado final, o que fica guardado na memória são os momentos de empatia e cumplicidade que surgiram  entre o médico e o paciente enquanto estiveram juntos, com a mesma missão. Esses são os momentos que merecem um cuidado especial.

Isso tudo foi meu querido Alê quem me ensinou e hoje tenho a chance de compartilhar com os senhores.

 

Muito obrigada.

 

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